quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O que é a felicidade?


Será que a ciência pode mensurar esse sentimento tão desejado?

Por muito tempo, a felicidade foi tratada como uma sensação intangível, tema da filosofia e da arte – e não da ciência . Acontece que , nos últimos anos, a união entre psicólogos, economistas e neurologistas turbinaram a chamada “ciência da felicidade”, um novo campo que promete revolucionar a ciência nas próximas décadas.

Como os neurologistas já conseguem identificar quais áreas do cérebro são acionadas quando sentimos prazer, os pesquisadores conseguem cruzar esses dados com as respostas das entrevistas, passando a contar com um panorama muito mais confiável sobre o tema. Mas como defini-la?


“Felicidade é sentir-se bem, gozar a vida”, diz o economista britânico Richard Layard, autor de A Ciência da Felicidade. Considerado uma das maiores autoridades no assunto, ele ficou famoso por levantar uma questão curiosa: o aumento de renda de países não foi seguido do aumento do grau de felicidade dos seus cidadãos.

De acordo com Layard e outros pesquisadores, isso acontece por dois motivos. O primeiro é o fato de que o que torna uma pessoa mais feliz não é o aumento da renda em si, mas o aumento em comparação aos seus colegas. Uma pesquisa na Universidade Harvard, nos EUA, mostrou que a maioria dos alunos preferiria receber US$ 50 000 se os outros ganhassem a metade desse valor, em vez de receber US$ 100 000 se os outros ganhassem US$ 200 000. O segundo estaria em nossa capacidade de nos adapta r ao novo padrão.

Mas, se a riqueza não traz felicidade, o que traz? Se você pensou em saúde, juventude, um QI alto, um bom casamento, dias ensolarados ou ter uma crença religiosa, saiba que tudo isso ajuda. Mas, de acordo com pesquisa realizada em 2002 pela Universidade de Illinois, também nos EUA, as pessoas com alto nível de felicidade são aquelas que têm mais capacidade de fazer amigos e manter fortes laços afetivos com eles. Um hábito simples e gratuito.

Por Rodrigo Cavalcante

http://super.abril.com.br/revista/240a/materia_especial_261548.shtml?pagina=1
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

The Matrix



De todos os filme que já assisti Matrix é sem duvida o que considero como "o melhor", é uma mistura perfeita de ficção científica em um futuro apocalíptico, muita ação, filosofia e religião, para aqueles que preferem ficar em um estado de repouso é apenas um filme de ação, mas, para os que procuram despertar sua consciência é uma rica aula de filosofia.

Sempre que assisto novamente algum dos filmes da trilogia descubro algo de novo, nesta complexa obra, que parece imitar a vida.

Uma cena que me chamou a atenção é a de Cypher, quando esta saboreado um refeição ilusória criada pela Matrix, e aceita trair os companheiros rebeldes e entregar seu líder Morpheus, em uma alusão a Judas, ele diz “Ah, a ignorância é uma dádiva”, isso de certa forma reflete muito do nosso mundo onde, “Buscar a verdade é uma opção, assim como viver na ignorância também é”




Algumas curiosidades sobre o Matrix:


Neo (novo) é um anagrama de One (um) e de Eon (variante de Aeon, "eterno").

Morpheus (deus grego do sonho).

Nabucodonosor,Logos e Osiris, são nomes de naves humanas em Zion. Nabucodonosor foi o principal rei da Babilônia responsável por destruir Jerusalém e atormentado por sonhos. Osiris é a divindade egípcia e rei supremo dos mortos. Logos, desde o significado grego para ?razão? até ?palavra? nos estudos judaicos. É a força que rege o universo.

No começo do filme quando Choi e DuJour ("choix du jour", "a escolha do dia" em francês) vêm visitar Neo, ele é saudado com as frases: "Aleluia! Você é o meu salvador, o meu Jesus Cristo pessoal! Você não existe", prenunciam a verdadeira identidade do herói, e depois de Neo falar do "sentimento que faz você não ter certeza se está sonhando ou acordado", Choi responde que acha que Neo "precisa se desplugar".

O Oráculo é uma referência direta ao Oráculo de Delfos, da mitologia grega. Delfos significa "útero" em grego.
Na sala de espera do Oráculo tem dois quadros que dizem: "Conhece a ti mesmo" e "Nada em excesso", que eram as frases que estavam escritas no pórtico do Oráculo de Delphos (templo Grego onde as Pitonisas profetizavam).

O próprio nome “matrix” traz em si inúmeras mensagens. Matrix é matriz, mãe e num sentido mais secreto ainda poderia ser visto com a junção das palavras Maya e Trix que em sânscrito significam “ilusão” e “três” respectivamente, fazendo assim alusão aos 3 véus, ou às 3 ilusões (ilusão física, psíquica e espiritual) que no hinduísmo são os véus que ocultam a verdade.

Trinity – Em inglês trinity significa trindade e no filme a trindade formada por Neo, pela própria Trinity e Morfeu tem a missão da salvação da humanidade. Note-se que nas trindades de várias religiões e tradições há a figura feminina.

O nome de Neo na Matrix que é Thomas, que em inglês seria Tomé que biblicamente é aquele que só acredita naquilo que vê.

A cidade onde os poucos humanos acordados vivem que é Zion, que em inglês significa Sion, a cidade bíblica onde Moisés recebeu os mandamentos de Deus.

A Oráculo diz que Neo não é o Escolhido, mas que possuía o Dom - talvez em uma outra vida ele seria. Pois bem, antes de Neo demonstrar ser o Escolhido, ele 'morre', ressurgindo como o predestinado.

O filme Matrix utiliza em inúmeras passagens os mitos contidos nas principais religiões, como por exemplo o cristianismo: Neo é o redentor. Neo é a verdade. Neo representa a vida. Neo ressuscita. Outra situação com o simbolismo do cristianismo é que Neo é gerado metaforicamente para a vida real por Trinity, que é quem lhe apresenta a vida real ainda na Matrix, como um período de gestação, personificando o papel mítico de Maria. Outra
alusão ao cristianismo é o papel de Morfeu que antecede Neo e que o anuncia, assim como fez João Baptista ao anunciar o Cristo.

Confira os números dos quartos onde Trinity e Neo se encontram, em determinados momentos do filme. Quando os policiais tentam prender Trinity, na seqüência inicial do filme, a moça está no quarto 303 (trinity=trindade). Já Neo, que é considerado 'O Escolhido' (The One, ou seja: Um), mora no apartamento 101


Frases:

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Morfeu: "Você já teve um sonho, Neo, em que você estava tão certo de que era real? E se você fosse incapaz de se acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o real?"

Morfeu: “O que é real? Como define real? Se você está falando do que pode ser cheirado, provado e visto, então real é simplesmente um sinal elétrico interpretado pelo seu cérebro “

Depois de muito refletir, Descartes chegou à conclusão deste enigma em sua famosa frase “Penso, logo existo”, na qual encerra o pensamento de que é impossível duvidar da própria experiência consciente – e que ninguém pode duvidar de sua existência como ente pensante. Quanto aos enganos que os sentidos podem nos pregar, que ele me engane o quanto quiser, nunca me obrigará a ser nada, desde que eu pense que sou alguma coisa. Para cada um de nós, a consciência é indubitavelmente real, seja qual for a realidade externa que ela pareça nos apresentar. Mas longe de ser uma unanimidade, as idéias de Descartes não são aceitas por todos e até hoje reina a dúvida quanto à pergunta Como saber se vivemos no sonho ou na realidade?

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Neo: O que é Matrix?
Morfeu: Você quer saber o que é Matrix? Matrix está em toda parte [...] é o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.
Neo: Que verdade?
Morfeu: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.

Referência óbvia é a Alegoria da Caverna, um dos pontos centrais de A República, de Platão - o texto inicial do pensamento ocidental, de acordo com Platão, nós seríamos esse povo que vive na caverna, presos pelas amarras das aparências que não refletem a verdadeira realidade do mundo. Para solucionar essa questão, Platão propôs que somente através da filosofia, educação e iluminação o ser humano pode atingir a realidade verdadeira do mundo. E assim, com este pensamento, foi um dos responsáveis por criar aquilo que hoje conhecemos como Ciência.

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Morfeu conduzindo Neo até o Oráculo: “Só posso lhe mostrar a porta. Você tem de atravessá-la”
Há uma grande diferença entre saber o caminho e percorrer o caminho -> Aqui a lição de que a verdade é uma busca individual. Ninguém pode nos dar a verdade. Nós temos que buscá-la. Outro detalhe importante nesta cena é que a porta é guardada por um cego, ou seja, sendo cego ele não vê as ilusões e por isso pode guardar a verdade que é representada pelo Oráculo.

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Quando Neo vai consultar o oráculo, ele encontra um menino em trajes budistas que consegue entortar colheres sem tocá-las. Observe no diálogo o que é a "verdade":

Menino: Não tente dobrar a colher. Não vai ser possível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade.
Neo: Que verdade?
Menino: Que a colher não existe.
Neo: A colher não existe?
Menino: Então verá que não é a colher que se dobra, apenas você.


Para a série Matrix, a "verdade" é que tudo é niilismo e ficamos sem saber quem é o Criador e quem é a criatura.

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MATRIX RELOADED: PERSONAGENS
O chaveiro: Atente pra um detalhe, por que vc acha que o chaveiro era um oriental?Há uma razão nisso. E bastante clara. O conhecimento perdido, depois que Atlântida se dividiu entre nações. Uma delas é a nação oriental. Daí advém as "chaves" para a o "mainframe" através da mente (Budismo, Confucionismo) e do corpo (Reiki, Shiatsu, Do-in, Acupuntura, entre outros). O Merovíngeo, na verdade, não aprisiona o chaveiro, apenas o guarda, como garantia de que o conhecimento não seja transformado em outra coisa que não aquilo para o qual foi escrito. As chaves eliminam o tempo e o espaço, ou, pelo menos, a consciência de eles existem de fato.
O chaveiro diz que a porta para o Mainframe (Deus) ficará acessível por exatamente 314 segundos. Isso pode ter relação com o número Pi e com a Guematria, onde 314 é um dos nomes de Deus (El Shaddai).

Seraph: Esse nome deriva do hebreu srphe e significa "abrasador" ou "queimar completamente". É interessante notar que a função dele no filme é a de um firewall (muro de fogo, em inglês) para proteção da Oráculo. É o mesmo nome dos anjos Seraphim (IM em hebraico é plural) que, segundo o conceito hebraico, não é apenas um ser que "queima", mas "que se consome" no amor à Deus. Daí o fato dele aparecer com os códigos diferentes, como se estivessem em brasa!

Merovíngeo: Há toda uma linhagem de Reis da França pertencentes a esta "tribo" que o Vaticano matou. O último rei Merovíngeo foi Dagoberto II. É dito que os Merovíngeos seriam descendentes diretos de Madalena - e Jesus. Filhos de Notre Dame, descendentes no exílio, herdeiros de Jerusalem (Zion?), que até hoje tentam recuperar seu reinado e ocupar uma "terra prometida". A perda do direito de passar a tradição esotérica se deu entre os Merovíngeos quando houveram casamentos armados e a imposição da igreja. Restou tão somente a aparência, assim como nosso personagem do filme.

Persephone: Era a esposa de Hades e uma rainha da Intuição.
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Um comentário que em minha opinião tem muito haver com o Filme.
O ser humano vivencia a si mesmo, os seus pensamentos como algo separado do resto do universo, numa espécie de ilusão de óptica da sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. A nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte da nossa liberação e o alicerce da nossa segurança interior. ( Albert Einstein )
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Riqueza no mundo.


Com base em 2007.

Os 2% mais ricos entre os adultos da população mundial controlam mais da metade da riqueza do mundo, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Mundial para Pesquisa sobre a Economia do Desenvolvimento (Wider), ligado à Universidade da ONU (UNU). De acordo com a pesquisa, a parcela do 1% mais rico controla 40% da riqueza global; os 10% mais ricos controlam 85%.

Em contraste, os 50% mais pobres controlam apenas 1% da riqueza. O estudo é o primeiro de seu tipo a cobrir todos os países do mundo e todos os principais componentes da riqueza pessoal, entre eles ativos financeiros, dívidas e propriedade imobiliária. "Nós usamos o termo riqueza em seu sentido usado há bastante tempo, de patrimônio líquido: o valor dos ativos físicos e financeiros, menos as dívidas.

Nesse sentido, riqueza significa a propriedade do capital. Embora o capital seja apenas uma parte dos recursos pessoais, acredita-se que ele tenha um impacto desproporcional no bem-estar das famílias e no sucesso econômico, e, mais amplamente, no desenvolvimento e no crescimento econômicos", disseram os co-autores do estudo, James Davies, da Western Ontario University (Canadá), Anthony Shorrocks e Susanna Sandstrom, do Wider/UNU, e Edward Wolff, da New York University.

Segundo a pesquisa, bastam ativos no valor de US$ 2.200 para um adulto ser colocado entre os 50% mais ricos; para estar entre os 10% mais ricos, são necessários ativos no valor de US$ 61 mil; mais de US$ 500 mil são necessários para estar entre os 37 milhões de pessoas que compõem o clube do 1% mais rico.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

+Trabalho +Dinheiro +Stress


Tempos modernos

O expediente das 8 às 5, grande conquista do sindicalismo, já era. Empurradas pela concorrência, as pessoas estão trabalhando cada vez mais

Getúlio Vargas: seu governo instituiu a semana de trabalho de 48 horas, o descanso semanal remunerado e o direito a férias

Com o avanço da mecanização e da computação nas empresas, somado às crescentes conquistas sindicais, imaginou-se, em meados do século XX, que no fim dele as pessoas trabalhariam cada vez menos e disporiam de um tempo maior para o lazer, as artes, a natureza e a família. Sonho futurista, como aquele segundo o qual os automóveis voariam. As pessoas estão trabalhando cada vez mais, dispõem de menos tempo para o lazer e ficaram mais estressadas. Isso acontece tanto em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Austrália e Japão, como também – ou melhor, mais ainda – em nações em desenvolvimento que aspiram ao primeiro escalão, sobretudo Brasil, Chile e os chamados Tigres Asiáticos. O último levantamento do Bureau of Labor Statistics, o órgão do governo americano que coleta esse tipo de dado, mostra que em janeiro de 2000 a média nacional de horas trabalhadas nos Estados Unidos era de quarenta por semana, e no Vale do Silício, a capital do ultra-industrioso ramo da informática, ela bate em sessenta horas. No diligentíssimo Japão, trabalha-se, em média, 39 horas semanais (aí computado, lembre-se, todo tipo de trabalho, inclusive os de meio período ou menos).

O motor é o desemprego – No Brasil, dados levantados pela pesquisa mensal de emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a média de horas trabalhadas bateu nas 41 por semana no final dos anos 90, contra 39 do começo da década. Parece pouco, mas não é. Duas horas por semana significam oito ou dez a mais por mês, cerca de 100 horas por ano. Um salto enorme para um prazo tão curto, que coloca o Brasil em oitavo lugar em horas trabalhadas por ano no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (atrás dos Estados Unidos no cômputo anual, porque tem mais férias e feriados). Outro levantamento nacional do IBGE revela dados ainda mais impressionantes. Eles mostram que 71% da população brasileira economicamente ativa trabalha mais de quarenta horas por semana, sendo que para 39% a jornada é de pelo menos 45 horas. Como é que um século chega à metade celebrando como conquista a luta de sindicatos no mundo inteiro para reduzir jornadas fatigantes e termina com boa parte da população trabalhando cada vez mais?

A explicação dos especialistas, vejam só, é a diminuição crescente do emprego confortável do passado, aquele que durava por toda a vida útil e exigia pouco do funcionário. Numa simplificação de um processo intrincado, a economia globalizada da última década, principalmente, pôs contra a parede empresas lotadas de mão-de-obra habituada ao padrão oito-às-cinco. Lançadas numa competição feroz, adotaram a prática do melhor resultado ao menor custo possível. Instauraram-se o downsizing, a terceirização, a reengenharia – processos que levam à redução de pessoal. Quem ficou teve suas obrigações aumentadas e passou a trabalhar muito mais, não só para dar conta do recado como para não perder, ele também, a vaga. Quem saiu procurou alternativas menos rentáveis e mais cansativas, como ocorreu no Brasil na busca de brechas no mercado informal. "Em particular, o processo de enxugamento no país pôde ser visto com mais clareza no caso das empresas que foram privatizadas", diz Sérgio Mendonça, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). "As ex-estatais deixaram de ser cabide de empregos e passaram a exigir muito mais de um quadro de funcionários menor", afirma Mendonça.

Mais conforto, mais produção – A taxa de desemprego brasileira gira hoje em torno dos 8%, e a experiência de viver numa economia que sobe e desce deixa todo mundo com medo do futuro. Mas até nos Estados Unidos, onde a taxa de desemprego está em parcos 4%, o motor que impulsiona as longas jornadas é o mesmo. "Apesar de o índice de desemprego estar baixo nos últimos três anos, o americano morre de medo de ir para o olho da rua", explica Barry Bluestone, professor de política econômica da Universidade de Massachusetts e membro da equipe que assessora o todo-poderoso Alan Greenspan, presidente do banco central americano. "Na última década, mais de um quarto da população experimentou pelo menos um ano de subemprego, trabalhando menos de 35 horas semanais. A inflação está baixa, os economistas riem à toa, mas o americano não esquece o que passou e prefere se esforçar e trabalhar muitas horas, para não ser dispensado."

Já se trabalhou muito mais, é fato. Na Inglaterra pós-Revolução Industrial, o normal era o operário esfalfar-se no mínimo sessenta horas por semana, sem descanso remunerado. No começo do século XX, reduzir essa jornada tornou-se o objetivo número 1 dos sindicatos. Em 1938, estabeleceu-se a jornada de quarenta horas nos Estados Unidos. Em seguida, foi a vez de a Inglaterra adotar o mesmo limite e batizá-lo, instituindo-se a "semana inglesa". No Brasil de Getúlio Vargas, os trabalhadores ganharam direito a férias, descanso semanal remunerado e jornada de 48 horas. O forte movimento sindical dos anos 80 conseguiu implantar na Constituição de 1988 o teto de 44 horas de trabalho por semana. Na época, ainda se pensava que o futuro era trabalhar cada vez menos e ganhar cada vez mais. Nada disso aconteceu. Os movimentos sindicais perderam força, a produtividade ideal aumentou vertiginosamente e a tecnologia, embora tenha de fato diminuído alguns afazeres, aumentou outros.

De tanto ocupar a maior fatia da vida de seus funcionários, as empresas estão virando uma extensão de sua vida particular. Dentro do escritório, ou em áreas adjacentes, é possível aprender inglês, judô, artesanato e pintura, com patrocínio da firma. Namora-se nas cafeterias da empresa. Almoça-se na vizinhança para perder menos tempo. Há companhias que já oferecem serviços como dar assistência na compra de ingressos para o teatro. Agências bancárias internas são rotina nas grandes firmas. Algumas têm salão de beleza e academia de ginástica. Por mais surpreendente que pareça, já começam a aparecer aquelas que reservam um lugar para a soneca dos funcionários depois do almoço. O ânimo guerreiro dos velhos sindicatos de dar cada vez menos tempo e exigir cada vez mais salário da organização entrou em decadência vertiginosa. As pessoas querem carreira, salário ascendente, benefícios. Se for preciso trabalhar mais, por que não?

Em um bom número de países desenvolvidos as longas jornadas não são toleradas. O aumento das horas trabalhadas, então, nem pensar. É o que acontece nos países europeus de tradição social-democrata. A França está tentando conter o desemprego pela diminuição, por força de lei, da jornada de 39 para 35 horas semanais. Os franceses esperam criar novos postos de trabalho com essa estratégia. Pelo visto, vão esperar sentados. "É uma ilusão", comenta o sociólogo Jean-Louis Laville, autor de Uma Terceira Via para o Trabalho. "Apesar de estar vivendo uma fase de crescimento econômico, a França não consegue criar empregos. No lugar de impor regras, o governo deveria deixar o próprio mercado absorver a mão-de-obra à medida que precisasse", argumenta. A própria França já deveria ter aprendido que essa tentativa não funciona. Em 1982, os franceses reduziram a jornada de 42 para 39 horas semanais para combater o desemprego, que batia em 8%. O índice saltou para 12%, um dos mais altos da Europa. Na última década, enquanto na França só 3% dos postos de trabalho podem ser considerados novos, em países campeões de jornada, como os Estados Unidos e a Nova Zelândia, o porcentual de empregos novos é de 13% e 21%, respectivamente.

Os alemães ainda tiram seis semanas de férias por ano, além de inúmeros feriados e folgas no Natal e no Ano-Novo. Em alguns países escandinavos, o dia útil termina na sexta-feira na hora do almoço. Mas os especialistas acreditam que a competição acirrada com americanos e asiáticos, principalmente, e com a própria Europa Oriental (a República Checa está em sexto lugar entre os países com jornadas mais longas) vai no mínimo abalar a ordem das coisas nas fábricas e nos escritórios europeus. "Os trabalhadores alemães e franceses estão se esquecendo da velha equação de que tempo é dinheiro", argumenta Richard Freeman, professor de economia na Universidade Harvard. "Eles podem querer manter as noites e os finais de semana livres. Mas, se quiserem manter também o emprego, terão de ser mais produtivos, ou aceitar um contracheque menor."

Salários mais baixos – Já na Inglaterra, a nação européia ocidental mais varrida pelos ventos liberalizantes e globalizantes das últimas duas décadas, a coisa é diferente. Lá, a jornada média é de quarenta horas e o número de horas extras disparou: em 1988, pouco mais de 10% dos trabalhadores ficavam além do expediente tradicional até as 5 da tarde. Em 1998, eram quase metade do total os que ultrapassavam o expediente burocrático. "O que leva a esse comportamento é a falta de oportunidades de trabalho, em decorrência da reformulação geral das empresas", explica Susan Harkness, professora da London School of Economics (LSE). Segundo seus estudos, cerca de 60% dos ingleses dizem que trabalham mais do que deveriam porque não vêem chance de encontrar outro emprego. "Muitos têm certeza de que seus chefes os exploram porque sabem desse temor", conta Harkness.

A empresária Terezinha: interferência em tudo, "da criação ao comercial", e falta de tempo para um cafezinho com o marido, que também trabalha na empresa

O mesmo debate, que põe de um lado a turma do "menos horas, mais postos de trabalho" e de outro a do "quando mais se regula, menos emprego se cria", ocorre neste momento no Brasil. Sindicatos de diversas categorias lutam para reduzir a jornada legal de 44 para quarenta horas e, dessa forma, intervir num sistema que, informalmente, predomina nas indústrias brasileiras: o chamado banco de horas. Quando o período é de vendas fracas, parte dos trabalhadores fica em casa, e essas horas de descanso vão para um "cofrinho". Quando a produção se acelera, todo mundo trabalha além da jornada, sem ganhar a mais porque as horas extras são descontadas da tal poupança. Resultado: evitam-se dispensas, mas também não há contratações. "Com um crescimento econômico anêmico, uma legislação trabalhista que não possibilita negociações e pessoal mal qualificado, o empresário não quer contratar gente nova", explica o economista José Pastore, professor da Universidade de São Paulo (USP). "Mesmo em recessão, quando precisa produzir mais, ele opta pela hora extra. Daí o Brasil ter uma jornada longa sem, necessariamente, estar vivenciando o crescimento econômico americano." Outro setor que mantém longas jornadas, sem que isso reflita pujança econômica, é o informal. "O taxista, o encanador, aquele sujeito que trabalha por conta própria, todos devem estar dedicando o dobro de tempo ao batente", analisa José Paulo Chahad, também economista e professor da USP. "Eles precisam ficar muito mais horas disponíveis, à espera de um cliente, para manter o nível de renda de antigamente. Se houvesse gente batendo à sua porta, eles poderiam ter um horário fixo, ter a mesma renda e só trabalhariam mais se quisessem um extra."

Não é só o esforço para manter o emprego que faz com que brasileiros, americanos e asiáticos trabalhem tanto. Salário, como se sabe, conta muito. "Não é coincidência que dois campeões da desigualdade de renda, Brasil e Estados Unidos, tenham jornadas maiores", avalia o professor Bluestone. "Ganhar pouco força as famílias de baixa renda, que representam a maioria da população, a trabalhar mais, o que não acontece na Europa, onde a distribuição de renda é mais igual. Quanto maior a desigualdade, maior a jornada." De acordo com dados do IBGE, o rendimento médio mensal do trabalhador brasileiro era de 5,13 salários mínimos em 1991. Em 1999, havia baixado para 4,67. "A grande maioria dos trabalhadores brasileiros, que tem baixa qualificação, trabalha muito porque ganha e produz pouco", analisa o economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. "Outros trabalham muito porque são qualificados e podem ganhar mais pelo tanto que produzem. O resultado é que todo mundo encontra motivo para trabalhar muito."

Na ponta dos que são qualificados e ganham pelo resultado que apresentam, os executivos têm destaque. Segundo pesquisa feita pelo Grupo Catho, empresa de consultoria de São Paulo, no Brasil a jornada média dessa categoria é de 54 horas semanais (a americana é de cinqüenta horas), sem contar o trabalho dos fins de semana e o que levam para casa todo dia, depois do expediente. Entre esses profissionais, ganhar muito dinheiro é motivação disseminada, mas não a única. Também contam o desafio, o poder, o reconhecimento. Tanto que não adianta apenas passar horas na frente do computador; tem de saber usar bem o tempo de trabalho. "Antes, a pessoa ficava no escritório o suficiente para impressionar, já que os empregos eram quase vitalícios", comenta Winston Pegler, da Ray & Berndtson Consultores Gerenciais. "Hoje, o executivo trabalha muito porque sabe que, se fizer mais, vai sobressair e novas oportunidades irão aparecer." O padrão se repete inclusive em quem toca negócio próprio. Marcos Zylberstajn, 69 anos, que fez a vida como comerciante, sente orgulho do filho engenheiro, Rogério, que, aos 39, é dono de uma construtora. Mas não entende por que ele tem de ser tão ocupado. "Sempre trabalhei muito, mas viajava com a família nas férias e, nos finais de semana, o levava ao Maracanã", conta. Rogério, por sua vez, encara jornadas diárias de doze a catorze horas e nem família tem – é solteiro, por falta de tempo. "Minha vida pessoal se confunde com a profissional", diz.

Os Zylberstajn: Marcos, comerciante aposentado, espanta-se com o ritmo de trabalho de doze a catorze horas por dia do filho, o empreiteiro Rogério

Nessa nova cultura de trabalhar muito, ganhar muito e subir muito na vida, o desejo de consumo é outro fator preponderante. As pessoas estão trabalhando mais, também, para poder comprar mais. Em 1991, a economista Juliet Schor, de Harvard, escreveu um livro que se tornou uma espécie de bíblia do assunto. Em The Overworked American: the Unexpected Decline of Leisure (Americanos Trabalham Demais: o Inesperado Declínio do Lazer), ela calculou que os americanos estavam trabalhando 163 horas a mais por ano do que em 1970. Intrigada com o tamanho da importância do consumo na vida daqueles trabalhadores superocupados, partiu para nova pesquisa, tentando esclarecer os motivos de tanto compra-compra. O resultado é outro livro, publicado em 1998, The Overspent American: Why We Want what We Don't Need (Americanos Compram Demais: por que Queremos o que Não Precisamos). Nele, Schor culpa a televisão, principalmente, por impor valores e vender símbolos de status que influenciam o americano a ser um povo que gosta de gastar, não de poupar – uma definição que cabe, sem tirar nem pôr, nas fronteiras do Brasil que tem dinheiro para ir às compras. Já o alucinado ritmo de trabalho dos chamados Tigres Asiáticos, campeões imbatíveis em horas trabalhadas no levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), tem explicação diversa. "O sucesso econômico de países como Coréia do Sul, Tailândia, Malásia e Cingapura é, em grande parte, atribuído à atuação do Estado, que estimulou o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, manteve um sindicalismo fraco", explica o cientista político Alexandre Uehara, pesquisador visitante da Universidade de Sophia, em Tóquio. "Isso, aliado à disciplina oriental, legitimou a autoridade e o intervencionismo estatal e possibilitou a manutenção de uma carga horária de trabalho muito extensa."

Escritório em qualquer lugar – Seja lá qual for o motivo, trabalha-se muito hoje em dia. Mais: trabalha-se por princípio, por compulsão, porque "é assim e pronto". A mineira Terezinha Santos, 43 anos, dona da grife Patachou, passa doze horas por dia no escritório, bem mais que nos duros tempos em que começava seu negócio. "Coloco o dedo em tudo, da criação ao comercial, e me sinto realizada", diz ela, que mal tem tempo de tomar um cafezinho com o marido, Marcos, diretor financeiro da marca. Até os filhos, que, a princípio, teriam todos os motivos para reclamar das longas jornadas de trabalho dos pais, estão aderindo à nova atitude e passando a encará-la como coisa normal. Uma pesquisa feita pelo Families and Work Institute, de Nova York, com mais de 1.000 crianças e adolescentes americanos, mostra que apenas 10% gostariam de ficar mais tempo com a mãe e 15% com o pai, só 20% acham que os pais trabalham demais e 50% dizem que pai e mãe têm de trabalhar muito mesmo, para bancar as despesas da família.

O diretor de marketing Marinho: um escritório na mala, com fax, celular, notebook, scanner e máquina fotográfica digital, para permanecer conectado à empresa durante viagens pelo país inteiro

No entanto, 60% reclamam do fato de os pais chegarem estressados em casa. Stress, muito mais que excesso de trabalho, é a grande queixa de quem se dedica a longas jornadas. Na Inglaterra, seis em dez trabalhadores apontam o stress, e não a falta de tempo para a família ou para o lazer, como a pior conseqüência de trabalhar muito. No Brasil, pesquisa feita pela consultoria Deloitte Touche Tohmatsu mostra que 50% dos executivos brasileiros têm a mesma reclamação. Em 1997, 60% dos americanos disseram que nunca pareciam ter tempo suficiente para fazer tudo o que era preciso no trabalho. Vinte anos antes, apenas 40% tinham a mesma queixa. A bordo de seu notebook com acesso à rede da empresa, Luiz Alberto Marinho, 40 anos, diretor de marketing da Comapps, maior administradora de shopping centers no país, aprova campanhas publicitárias e autoriza novos projetos estando em um hotel em Manaus ou dentro de um avião. Como passa metade do mês viajando, ele montou um escritório móvel composto de notebook, celular, fax, máquina fotográfica digital e scanner. "Minha jornada diária chega facilmente a onze horas", constata.
Isso quer dizer que está todo mundo infeliz e descontente? De jeito nenhum. Depois de um estudo de três anos com as 500 maiores empresas americanas, a socióloga Arlie Hochschild, da Universidade de Berkeley, descobriu que, mesmo quando a companhia oferece condições para seus funcionários irem embora mais cedo, a maioria prefere ficar. Eles gostam da camaradagem do escritório e do reconhecimento que lá recebem. Mais ainda: preferem trabalhar no escritório a enfrentar as obrigações domésticas. Nos Estados Unidos, o Viciados em Trabalho Anônimos, grupo que segue o padrão dos Alcoólicos Anônimos, registra o menor índice de freqüentadores nos seus dezessete anos de existência. "Tem gente que gosta tanto de trabalhar que sofre de ansiedade quando sai de férias ou se aposenta", diz Wagner Gattaz, psiquiatra da USP

http://veja.abril.com.br/050400/p_122.html
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Ian Stevenson - Vidas passadas


O Dr. Ian Stevenson – americano, que foi chefe da Divisão de Parapsicologia do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Virginia, EUA, num trabalho que durou mais de trinta e oito anos, pesquisou e arquivou mais de 2.600 (dois mil e seiscentos) casos, na sua maioria de crianças, que, em dado momento de suas vidas, sem uma razão muito clara para isso, passaram a dizer que tinham sido outra pessoa em outra vida diferente, lembrando-se com impressionante nitidez de fatos e situações vividas, assim como de nome de pessoas e cidades.


O psiquiatra Ian Stevenson foi a maior autoridade mundial no estudo da reencarnação com método científico. Não conseguiu provar sem sombra de dúvidas que, em nossa trajetória evolutiva, nós realmente vivemos (e morremos) muitas vezes. Mas as descobertas que fez, o imenso acervo que coletou de casos que sugerem reencarnação, o fizeram chegar a poucos passos das provas definitivas.

Em 8 de fevereiro de 2007, o estudo científico da reencarnação sofreu uma perda pesada, dessas que demoram a ser Esubstituídas. Aos 88 anos, após um longo tratamento contra a pneumonia, faleceu em Charlottesville, na Virgínia (EUA), o professor Ian Stevenson, a maior autoridade mundial nessa área. Graduado em medicina, professor de psiquiatria e diretor da Divisão de Estudos da Personalidade (atualmente, Divisão de Estudos da Percepção) da Universidade de Virgínia, ele dedicou mais de 40 anos à pesquisa da reencarnação e escreveu mais de 200 artigos e livros fundamentais sobre o tema.

Stevenson nasceu em 31 de outubro de 1918, em Montreal, no Canadá. Estudou nas universidades de St. Andrews (Escócia) e McGill (Montreal). Nesta última, graduou-se em medicina como o primeiro da turma. Antes de se fixar no Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, em 1957, ele trabalhou na Faculdade de Medicina da Universidade Cornell (1947- 1949) e na Louisiana State University (1949-1957).

O interesse de Stevenson por assuntos extra-acadêmicos provavelmente teve a influência de sua mãe, adepta da teosofia. Em 1950, após um encontro com Aldous Huxley, ele se tornou um dos pioneiros no estudo médico dos efeitos do LSD. Os seus estudos na área parapsicológica incluem diversos temas, como telepatia, precognição, xenoglossia, experiências de quase-morte, aparições, mediunidade e fotografia psíquica. Mas foi com os seus trabalhos sobre a reencarnação que ele se tornou mundialmente conhecido.

Como levar um assunto tão esquivo como a reencarnação para os domínios da ciência? Stevenson concentrou- se no estudo de casos, em especial aqueles em que crianças pequenas informavam espontaneamente o que seriam recordações de uma vida passada. Em geral, essas crianças começam a dar informações sobre uma existência anterior entre 2 e 4 anos, e aos 8 já não se recordam mais do tema.

Cauteloso, Stevenson nunca afirmou que os seus melhores casos comprovavam a reencarnação, já que as ferramentas contemporâneas da ciência ainda não são capazes de flagrar esse fenômeno. Ele sempre prestou atenção aos ataques dos céticos a seu trabalho – principalmente fraude, fantasia, distorções de significado cometidas por intérpretes e metodologia sujeita a falhas – e usava as críticas pertinentes para refiná-lo. Assim, o que divulgava eram casos que, em suas palavras, “sugeriam” reencarnação. Mas as evidências que sustentam os casos selecionados constituem um ótimo ponto de partida para se refletir a esse respeito.

O PONTO DE PARTIDA – A primeira monografia de Stevenson sobre esse assunto, de 1961, foi The Evidence for Survival from Claimed Memories of Former Incarnations, na qual examinava 44 casos publicados de memórias de vidas passadas. O texto rendeu-lhe um prêmio e foi publicado pela American Society for Psychical Research em homenagem ao filósofo William James, um dos primeiros presidentes da entidade. A repercussão não parou aí: depois de ler o trabalho, a famosa médium norteamericana Eileen Garrett, co-fundadora da Parapsychology Foundation, contatou o autor e pediu-lhe para investigar o caso de uma criança indiana que dizia ter vivido antes, sob o patrocínio de sua organização. Stevenson aceitou e viajou à Índia durante as suas férias para fazer a pesquisa.

Pioneiro na pesquisa do efeito Kirlian e da transcomunicação instrumental em nosso país, o engenheiro e psicobiofísico Hernani Guimarães Andrade foi também o introdutor no Brasil da metodologia de Ian Stevenson para o estudo de casos sugestivos de reencarnação. Os dois, aliás, se conheciam pessoalmente – o pesquisador canadense veio a São Paulo em 1972, e seus arquivos abrigam casos brasileiros estudados pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas (IBPP), presidido por Andrade. Os estudos do IBPP feitos segundo o modelo elaborado por Stevenson renderam os livros Reencarnação no Brasil – Oito Casos que Sugerem Renascimento (Ed. O Clarim, 1988) e Renasceu por Amor – Um Caso que Sugere Reencarnação: Kilden & Jonathan (Ed. Folha Espírita, 1995).

Enquanto isso, Chester F. Carlson, o inventor da máquina Xerox, leu o ensaio de Stevenson e foi conquistado pelo tema. Carlson passou a patrocinar o pesquisador e chegou a acompanhá-lo ao Alasca, em viagens para entrevistar membros da tribo tlingit sobre suas crenças e experiências reencarnatórias. A estada na Índia, porém, convenceu Stevenson de que a maioria dos casos merecedores de estudos nessa área estava na Ásia. Estudá-los implicaria usar um tempo e recursos de que ele não dispunha.

Carlson, porém, foi fundamental para mudar esse quadro. Passou a fazer doações anuais para as viagens e, ao morrer, em 1963, deixou US$ 1 milhão para a Universidade de Virgínia criar uma cátedra de psiquiatria a ser ocupada por Stevenson e mais US$ 1 milhão para ele continuar suas pesquisas. Foi com esse dinheiro que o pesquisador criou a Divisão de Estudos da Personalidade, o único departamento acadêmico no mundo voltado para o estudo da reencarnação, de experiências de quase-morte e de outros fenômenos paranormais.

Nesse intervalo, Stevenson começara a prestar mais atenção a um detalhe antes praticamente ignorado no grupo de meninos e meninas que afirmavam ter vivido anteriormente. Na maioria dos casos, a criança portava uma marca ou defeito de nascença que parecia endossar um fato importante de sua vida prévia – por exemplo, duas pequenas marcas circulares na cabeça em posição e dimensões semelhantes às dos ferimentos que a pretensa personalidade anterior tivera ao ser baleada naquela região do corpo. Assim como marcas associadas a tiros, havia diversas outras remetendo a ferimentos causados por armas de fogo, facas, machetes, equipamentos industriais ou por acidentes envolvendo veículos com perda parcial de membros.

"STEVENSON SEMPRE PRESTOU ATENÇÃO AOS ATAQUES DOS CÉTICOS A SEU TRABALHO"

AS OBRAS ESSENCIAIS – Ian Stevenson trabalhou por décadas uma imensa gama de material recolhido sobre esses casos em diferentes países, produzindo a partir dele muitas teses e livros. O mais importante deles, certamente, é Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects (Praegar Publishers, 1997).

Dividida em dois volumes, cada qual com mais de mil páginas repletas de ilustrações, essa obra fundamental examina em minúcias 225 casos escolhidos entre os quase três mil disponíveis nos arquivos do autor. Lançada no mesmo ano, uma versão mais acessível aos leigos, Where Reincarnation and Biology Intersect (Praegar Publishers), contém 65 casos condensados em quase 250 páginas.

Mesmo recheadas de detalhes, essas obras não despertaram interesse significativo entre a comunidade acadêmica e o público em geral. Segundo Roy Stemman, editor do site Paranormal Review, foi provavelmente por isso que Stevenson concordou em levar o premiado jornalista Tom Shroder (então editor sênior do jornal The Washington Post) a suas últimas viagens antes da aposentadoria, entre 1996 e 1998, para examinar casos no Líbano, na Índia e no sul dos Estados Unidos. Dessa jornada resultou o livro Almas Antigas (lançado em 1999 e publicado em 2001 no Brasil pela Editora Sextante), no qual Shroder mostra não apenas detalhes de Stevenson em ação, aplicando a sua metodologia, como o lado humano dessas pesquisas, desprezado nos textos científicos.

O cuidado com os detalhes
O psiquiatra Ian Stevenson sempre foi meticuloso em seus estudos, e o tempo e as críticas o levaram a apurar cada vez mais as suas técnicas de investigação. Os seus estudos estão repletos de verificações cruzadas, tabulações de coincidências e discrepâncias nos testemunhos e discussões aprofundadas de hipóteses que poderiam explicar o caso sem a necessidade de recorrer à idéia de reencarnação.

Com o tempo, ele passou a dar mais atenção aos casos envolvendo crianças que não apenas “lembravam” o que haviam feito em sua suposta vida anterior como reproduziam características psicológicas, costumes, maneirismos e habilidades da pessoa morta. Segundo Stevenson, era probabilisticamente bem mais fácil a criança aprender a narrar fatos do que comportar-se como a pessoa de quem ela dizia ser a reencarnação. Outro detalhe importante são as marcas de nascença que combinam com a forma como as pessoas teriam morrido em sua vida anterior. Em 51% dos casos em que a existência prévia da criança foi identificada, o indivíduo sofreu morte violenta.

Com a aposentadoria de Stevenson, em 2002, a cadeira Carlson de psiquiatria da Universidade de Virgínia foi assumida por Bruce Greyson. Jim Tucker, psiquiatra infantil e professor assistente no Departamento de Psiquiatria da universidade, é quem tem dado seqüência às investigações de casos relativos à reencarnação e a outros temas parapsicológicos, com o apoio de Greyson e de outras pessoas da equipe.

A cautela de Stevenson ao trabalhar com a reencarnação fez com que pouco se conhecesse sobre as suas opiniões pessoais a respeito desse tema. Uma rara fresta nesse muro está nos parágrafos finais de um texto assinado por ele e publicado no Journal of Scientific Exploration no ano passado (vol. 20, nº 1), intitulado Half a Career With the Paranormal:

“Todos nós morremos de alguma doença. O que determina a natureza dessa doença? Acredito que a busca da resposta pode nos levar a pensar que a natureza de nossas doenças pode derivar, pelo menos em parte, de nossas vidas passadas. Os casos de crianças que afirmam lembrar de vidas passadas e que descreveram marcas e defeitos de nascença sugerem isso. Algumas dessas crianças relataram doenças internas.”

“Minha própria condição física – deficiência em meus brônquios (desde a primeira infância) (...) me deu um interesse pessoal a respeito dessa importante questão. Não deixe ninguém pensar que eu conheço a resposta. Ainda estou procurando-a.”

A VISÃO GREGA – No Ocidente, vários filósofos gregos trabalharam com a idéia da reencarnação, a começar por Pitágoras. Ele afirmava ter vivido antes como guerreiro troiano, comerciante, agricultor e prostituta. Pitágoras aceitava a idéia de que um humano reencarnasse como animal, e por isso impediu um homem de surrar um cachorro: o filósofo alegou que havia reconhecido a alma de um amigo no animal ao ouvi-lo ganir.

Platão defendia que a alma é imortal, antecede o nascimento e reencarna diversas vezes. Cada alma escolheria sua próxima vida, a partir de suas experiências nas vidas anteriores. Em sua obra Fedro, ele apresentou uma curiosa classificação em nove níveis de virtuosidade para a jornada da alma. Em vidas sucessivas, os seres transitariam por esses níveis até atingir um grau evolutivo capaz de levá-los a um reino celestial. No nível mais baixo estariam os tiranos. No quarto, os médicos e atletas. No terceiro, os políticos. No segundo, os guerreiros e reis virtuosos. Os filósofos, artistas e músicos ocupavam o topo da escala.

Discípulo de Platão, Aristóteles inicialmente adotou as idéias do mestre. Depois passou a opor-se aos conceitos de imortalidade e de reencarnação. Essa e outras concepções fizeram dele o precursor do materialismo ocidental vigente até hoje, o que não impediu que grupos de crentes na reencarnação se manifestassem desde então neste lado do mundo.

Um de seus redutos foi o cristianismo primitivo. O influente teólogo e escritor alexandrino Orígenes (185 d.C. - 254 d.C.), por exemplo, aceitava a reencarnação sem meias palavras. Num de seus textos, ele disse: “Portanto, todos os que descem à Terra, de acordo com seus merecimentos ou com a posição que ocuparam nela, recebem ordens para nascer neste mundo, em um local diferente, ou em outra nação, ou numa profissão diferente, ou com doenças diversas, ou como descendentes de pais mais ou menos religiosos ou pios, de modo que às vezes pode acontecer de um israelita retornar em pleno Egito e de um egípcio nascer na Judéia.”

No ano 400, o papa Anastácio condenou Orígenes por suas “opiniões cheias de blasfêmias”. Isso, porém, não bastou, e uma alternativa mais radical foi tomada no século 6: o Concílio de Constantinopla excomungou o teólogo e todos os que partilhavam a sua idéia de “monstruosa restauração”.

A HERESIA DAS VIDAS SUCESSIVAS – Mas as idéias reencarnacionistas continuaram a encontrar abrigo em numerosas seitas cristãs. Uma delas, a dos cátaros (“purificados”), conquistou o sul da França no século 11. Para os cátaros, as almas humanas eram espíritos caídos e as encarnações serviam-lhes como prova e expiação – existências boas davam direito a um corpo capaz de levar o ser a uma elevação ainda maior, enquanto existências ruins eram refletidas em um organismo doente e destinado a passar por outras dificuldades.

sem tréguas aos membros da seita até conquistar seu último reduto, a fortaleza de Montségur, e levar à fogueira os adeptos lá capturados. Depois disso, a reencarnação foi definitivamente banida da Igreja cristã.

O tema voltaria à tona no Ocidente na segunda metade do século 19, época do florescimento do interesse por assuntos envolvendo espíritos. Em 1857, Allan Kardec lançou a pedra fundamental do espiritismo, O Livro dos Espíritos. Em 1875, 18 anos depois, Helena Blavatsky fundou em Nova York, nos Estados Unidos, a Sociedade Teosófica, que atraiu considerável interesse a partir de um ideário que incluía os conceitos orientais de carma e de reencarnação.

Em 1882, foi criada na Inglaterra a Sociedade de Pesquisa Psíquica, reunião de importantes intelectuais da época para estudar os fenômenos paranormais. Foi a senha para o início do interesse científico pelo assunto.

O interesse pela reencarnação, no entanto, somente viria a despertar uma atenção maior a partir do início da segunda metade do século passado, com a divulgação de experiências de regressão sob hipnose que levariam os pacientes a descrever detalhes de vidas passadas.

Alguns anos depois, Ian Stevenson publicava o seu primeiro estudo na área, e a partir daí a reencarnação deixou de ser encarada como um tema exclusivo do mundo religioso.

Por Eduardo Araia

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